500 mil exemplares, 500 erros em cada
Edição descuidada não impede “Condenado a Falar” de vender meio milhão, mas autor quer o dobro, com 300 mil só em Goiás, o que seria um recorde inimaginável
Nilson Gomes
Jorge Kajuru tem diversos títulos e só não usa o de eleitor, mas nem suas previsões mais otimistas diriam que venderia tantos exemplares de
Condenado a Falar em tão pouco tempo. Pelos cálculos do autor, foram 350 mil exemplares “em 65 dias, somente no interior paulista” — onde nasceu (em Cajuru, que lhe deu o nome artístico) e mora (em Ribeirão Preto, que chama de “minha aldeia” — ali apresenta um programa diário de 15 minutos no SBT local). Em Goiânia, no sábado, 26, Kajuru comemorou a venda do exemplar número 500 mil. O problema do livro, portanto, não é o mesmo dos goianos: o encalhe. Mas — que paradoxo — o problema do livro é o mesmo dos goianos: a edição descuidada, na qual sobram erros. Entre pequenas falhas gráficas, equívocos em nomes próprios e deslizes ortográficos, são mais de 500, culpa não necessariamente do autor, pois há uma revisora, Walkiria Lobo, responsável pela caça às agressões.
Condenado a Falar tem dois subtítulos, De A a Z e Pólvora Pura, além da recomendação “Impossível não ler”. A capa expõe tudo isso, mais dez vezes o nome do autor, que aparece amordaçado, como se estivesse condenado a calar, não a falar. Kajuru ficou sem poder usar sua maior arma, a palavra, em algumas oportunidades, todas narradas na obra: quando as TVs o demitiram ou se demitiu e quando sua rádio, a K do Brasil, era tirada do ar. Como o livro não tem censura e nele fala o que quer, o esparadrapo cruzado na boca é anacrônico. Para chegar ao milhão de exemplares, a meta que se impôs, será melhor corrigir as falhas. Nesta semana, Kajuru começa parceria com o jornal Diário da Manhã e seu objetivo declaro é vender 300 mil livros em Goiás, mil vezes mais que a média de escritores locais.
Uma tiragem tão avassaladora já na primeira edição, 350 mil exemplares, mostrava que Kajuru esperava o sucesso. Faltou procurar uma editora, não dessas que roubam o autor e passam a perna nos livreiros, esses que passam a perna nas editoras e nos autores. Uma editora para o óbvio: editar. Kajuru é muito talentoso no vídeo e nos microfones das rádios, mas carece de igual desenvoltura na comunicação impressa. O livro é prova inequívoca disso. O próprio Kajuru assina como editor e diz terem sido 12 as mãos que escreveram, as próprias e dos produtores Nathália Vieira, Ródnei Souza, Rodrigo De Brino, Simone Magalhães, Théo Campos, que seriam alcançados pelos direitos autorais, caso sobrasse alguma coisinha. Não é o caso, como se lê em texto nesta reportagem.

Pouca novidade e nenhuma pólvora
Condenado a Falar tem 264 páginas, não necessariamente de novidades. A rigor, apenas 97 são de Kajuru e menos de 50 têm algo relacionado a ser condenado a falar ou pólvora pura. As demais reproduzem artigos de Kajuru na Folha de S. Paulo, entrevistas em que é o autor (como com Romário) ou personagem (como no Programa do Jô), recortes de jornais e revistas, gráficos e até poemas — sem dúvida, a fraqueza de Kajuru: o grande profissional de rádio e TV não precisava se submeter a isso. Em três poemas, oferecidos às apresentadoras de TV Hebe Camargo (“Ave Hebe”) e Adriane Galisteu (“Eterna Dri”) e às mães do próprio Kajuru e de Galisteu (“Ê mamãe”). Nem Geraldo Coelho Vaz e Kleber Adorno fariam igual.
Os momentos altos do livro, destacados pela imprensa do Brasil inteiro, seriam as definições de “celebridades”, na lista “De A a Z”, e as 27 “páginas negras”, assim chamadas por serem impressas em preto, com as letras vazadas em branco, no fim da obra. Não há tanta pólvora assim. As críticas maiores são às redes de TV Record (principalmente a seu dono, Edir Macedo) e Globo e à Confederação Brasileira de Futebol (e seu presidente, Ricardo Teixeira). Mas nenhuma novidade capaz de abalar a estrutura das emissoras ou da CBF, até porque são informações já exibidas pela própria Globo. A irritação de Kajuru é por ter se resumido a um Globo Repórter as denúncias contra a cartolagem, a começar do maior nome do setor, o de Teixeira.
Conforme se lê em texto nesta reportagem, o próprio rol “De A a Z” tem mais elogios que críticas, ou mais “opa!” que “epa!”, ou mais pirulito que bala. São 128 comentários favoráveis, 37 contrários e nos demais fica morde e sopra. Até quanto a Teixeira, da CBF, fica com um pé no muro. Critica: “Sempre conheci tudo a seu respeito. Inclusive, o preço”. Em seguida, reconhece méritos no chefão da CBF: “Não misturo. Gerenciando e tomando decisões na Seleção, acertou mais do que errou”. Conclui profetizando: “Na Copa de 2014, só ele (Teixeira) ganhará. Rachará com alguns”. Diz e repete que foi “buscar todas as informações das profundezas do inferno”. E, como as que aparecem no livro são mornas, pelo jeito as quentes continuam queimando na casa do capeta.
O drama de querer livro “mais barato do mundo”
No início, Jorge Kajuru divulgou que Condenado a Falar seria vendido a 1 real, insuficiente para as despesas mínimas. Os orçamentistas de quatro gráficas consultadas em Goiânia ficaram abismados com a quantidade pedida pelo repórter, mas calcularam em quanto ficariam cada exemplar se fossem encomendados 350 mil, nos mesmos moldes do livro de Kajuru. Os preços variaram de 5 a 7 reais cada. Portanto, impossível vender a qualquer tanto abaixo, a menos que houvesse patrocinador. Não há. Kajuru ocupa a quarta capa com propaganda de três grandes escritórios de advocacia, mas avisa no alto da página: “Publicidade gratuita”. No miolo, nada de anúncio, pagou ou não.
Ao participar de Nada Além da Verdade, apresentado por Silvio Santos no SBT, Kajuru disse que sua meta era ganhar 40 mil reais, que salvariam a única herança de sua família, uma casa em Cajuru. O programa, que Kajuru gravou em 17 de dezembro de 2007, tem máquinas americanas que detectariam se o examinado mente; falseou, sai. Kajuru teve de expor as vísceras. Admitiu, por exemplo, três coisas que o machão típico relutaria contar até a si próprio: já brochou (“Passei mais de ano que não levantava, porque diabético é assim”), teve experiência homossexual (“Mas não gostei”) e seu pênis é pequeno — “defeito” que consta também do livro, onde também diz precisar de “mais 10 cm”. Mas não mentiu e levou mais que o dobro do que almejava, 100 mil reais, o prêmio máximo. Para subsidiar apenas a primeira edição, precisaria vencer 13 vezes seguidas o Nada Além da Verdade. Supõe-se que quem, há quatro meses, não tinha 40 mil reais para salvar o patrimônio, não tem 1 milhão e 400 mil para gastar com livros para o populacho. Os 100 mil ganhos no Nada Além... foram usados, segundo Kajuru, para pagar “todas” as suas dívidas.
Sem dinheiro para subsidiar, o jeito foi se render a algo próximo. Então, Kajuru não está tendo lucro, mas também não está perdendo milhão de reais, até porque não tem. Quem o conhece sabe que, se tivesse dinheiro ou bens, ele torraria até o último centavo num projeto como o do livro. Em Condenado a Falar, ele diz que gostaria de ser rico para bancar duas publicações, a revista Caros Amigos e o jornal Lance!, ambos de grupos milionários. Trabalhei com Kajuru e vi seu desprendimento com dinheiro, que distribui sem medida a empregados, pedintes, mulheres, projetos furados.
O algo próximo ao preço idealizado de 1 real foi cinco vezes mais. Na capa, Kajuru separa o público comprador: o da “Faixa salarial baixa” e o da “Faixa salarial média/alta”. O primeiro compraria o livro a 2 reais (“Pelas mãos do Kajuru”), 3 (“nos pontos de venda anunciados na TV pelo Kajuru”) ou “no máximo a 5, dependendo da distância da cidade” de quem adquire. Ao segundo, oferece por 20 reais “o Kit Completo”, composto de Condenado a Falar, um DVD com imagens do trabalho de Kajuru, um “CD surpresa”, o livro Dossiê K, que provocou polêmica em Goiás em 2002. O leitor passa pela capa e na próxima página vê outras três opções de preço: 4 reais (cidades a mais de 200 km de Ribeirão Preto, onde mora o autor), 5 reais (mais de 500 km) e “nunca acima de 6 reais”. Com isso, planeja vender 1 milhão de livros em um ano, sendo 200 mil autografados: “Serei vendedor de meu próprio livro (...) levando até você o livro mais barato do mundo”.
Em Goiânia, no sábado, 26, o livro foi vendido a 5 reais e quem se dispôs a enfrentar fila imensa recebeu autógrafo, tirou foto e conversou com Kajuru, que dá atenção a todos. Descontadas as despesas com passagens, hospedagem e alimentação do autor, mais o pessoal envolvido com a produção e as empresas de distribuição e venda, a conta ainda fecha. Kajuru continua tendo um prejuízo imenso. Ele já teve patrimônio razoável. Sua emissora, a Rádio K do Brasil, valia 8 milhões de reais. No capítulo “Um cala-boca milionário”, Kajuru conta que, em abril de 2000, recusou 3 milhões de reais por 49 por cento das ações da rádio, que seriam pagos por três empresários. Conta o nome de um deles, Rivas Resende, então diretor da Arisco e hoje dono da empresa Quick Logística. Em 2001, recusou quantia semelhante. Na página 55 e 63, reproduz partes dos contratos. Com semelhante quantia, bancaria mais livros a “preço acessível a qualquer cidadão”.
A realidade é outra. O patrimônio de Kajuru virou munha. Perdeu a rádio, que se à época valia 8 milhões, acabou dela saindo em 2003, sem um tostão e ainda dando graças a amigos por se livrar das dívidas. Atribui seu infortúnio a perseguição do então governador Marconi Perillo, um dos três personagens mais criticados do livro. Então, quem está bancando o déficit do livro? Seria possível que algum inimigo do trio ajudasse a subsidiar 1 milhão de exemplares de um livro que o detonasse? Seria. Se o autor fosse outro. Kajuru não se submeteria a isso. Quem já perdeu tanto (patrimônio, amigos, empregos, dinheiro) em nome da coerência, não se venderia.
O mapa dos erros
Há cinco erros na página 1 (numeração que não inclui a capa), inclusive um agudo no nome do pai de Kajuru: está “Zézinho”. Um de pontuação na 3 (sobra vírgula em “Assim como, o conteúdo”). Dois na 5 (pontuação e falta um “l” em julgará). O prefácio do ex-jogador Sócrates tem, no mínimo, onze erros: faltam cinco vírgulas (só as imprescindíveis) e hífen em “sem-número”; é impossível “gravar” sem pilha durante duas horas e não perceber; Kajuru não derrubou o então governador Maguito Vilela nem deixou irado o atual governador de Goiás, Alcides Rodrigues; confunde “nestes” com “nesses”; maiúscula desnecessária na assinatura: “Dr. Sócrates Brasileiro, Ex-craque”. No texto chamado “Por Rosana Zaidan” passaram sete erros fora esse de ter como título o nome da autora — ressalte-se a qualidade do texto, que tem boas frases, como: “Até hoje, Kajuru amarga crueldades, mas consegue transformar restos em iguarias”. Portanto, 26 erros até agora.
O texto “Por Alfredo Orlando” tem um erro interessante: conta que Kajuru, ao chegar à capital paulista, em 1978, era “um menino de calças curtas”. Kajuru já contava 18 anos e um sujeito maior de idade não usa calça curta nem em filme do Mazaropi. Como de Jeca Tatu Jorge Kajuru só tem a rima, subentende-se que houve uma licença poética, termo em nome do qual se comete bastante besteira. O material escrito por Emanuel Carneiro tem dois erros: está sem título, abaixo da reprodução de um anúncio; sobra vírgula na assinatura. Na página 15, há dois erros, um de vírgula, outro em Goiás, que está com agudo no “i”. Na 16, sete erros, inclusive no título: “Palavaras”, com um “a” a mais. Um oitavo erro é que o título é sobre nada, numa falha de edição. E assim por diante, há erros médios e pequenos em toda página escrita por Kajuru.
Alguns textos são repetidos em mais de uma página. O que ocupa a página 5 inteira está também na 179 e de novo toma toda a 211, inclusive com os mesmos erros. O da 27 é o mesmo da 229. Kajuru diz várias vezes, na capa e em muitos outros lugares, que seu livro Dossiê K foi “preso”. Não. Foi censurado, foi perseguido. No rigor do palavreado jurídico, que é o adequado ao caso, o livro não foi preso, mas apreendido. Como os textos de Kajuru são fiéis à linguagem oral, que utiliza no rádio e na TV, não se pode chamar de erros os diversos entraves provocados com o idioma e com regras de redação. Em vez de somados no quadro das falhas, devem ser creditados ao estilo vencedor de Kajuru. Portanto, não entraram na conta dos 500 erros.
Quase todos os erros de Kajuru poderiam ter sido evitados com uma leitura mais ou menos atenta. Centenas de descuidos com a pontuação, por exemplo, podem ser eliminados em poucos minutos, quando for preparada a próxima tiragem. Levará 1 segundo para colocar a vírgula que falta à página 28: “Meu 1º livro, agora pode ser lido na íntegra”. Basta o logotipo da Nike depois de “agora”. Não é apenas um sinal gráfico, é um símbolo que compromete o entendimento da frase. Uma vírgula intrometida aqui, a falta dela acolá, ponto usado nitidamente como recurso para evitar erro maior não são sinais de analfabetismo, mas de relaxo. É impossível um conjunto de doze mãos (e, claro, meia dúzia de cérebros) não esfregar ao menos uma unha para tirar a vírgula do mais clássico erro de pontuação, a separação entre sujeito e verbo em “Juca, foi o 1º a defendê-lo”. O escorregão toma proporções maiores porque está no alto de uma página ímpar, como chamada da reprodução de um artigo de Juca Kfouri, jornalista conceituado que deu vida a duas revistas, Placar (inventada por ele) e Playboy (recauchutada por ele).
Outro erro comum é a falta de preposições, conjunções e demais elementos de ligação, além de um apagão nas classes gramaticais por atacado. Às vezes, na dúvida, substitui por ponto. Outras, simplesmente pula. Coisa simples de resolver, mas que compromete: um comunicador famoso e admirado como Kajuru fica associado a gargalos no uso de uma ferramenta vital em sua profissão, o idioma. Kajuru sabe usar bem a língua (e aqui a referência é unicamente à portuguesa), mas quem digitou para ele ou corrigiu teve “brancos” terríveis. Repito, tudo fácil de resolver. O que custa, na página 32, digitar um “d” e um “e” antes de “ombudsman” em “... fazendo o papel ombudsman de verdade”? Mas, enquanto alguém não digita, está lá o erro. Encontrei 41 lapsos parecidos.
O uso de maiúsculas é uma fonte absurda de tropeços. Dependendo da regra que se adota, pois não há critério no livro, são mais de 200 erros. Considerei menos de 40, por não somar como erros algo como o “S”, o “T” e o “V” em “Relatório Sintético por Tipo de Veículo”. Mas somei o “G” maiúsculo em “... mídia oficial do Governo, desde 1994” porque há a mesma palavra, com o mesmo sentido, com minúscula. Não uniformiza nomes próprios (polícia civil na página 66 e Polícia Civil na página seguinte), cargos (Secretário, Porta-voz, Governador...) nem horários, que grafa de três maneiras diferentes: “nove e meia da manhã” (página 38), “20 horas e 30 minutos” (página 39), “por volta das 10h30 da noite” (página 66). Aí não há erro, apenas falta de critério. Mas os erros se sucedem. Um carimbo de “gravado” acrescenta cinco, pois não tem o agudo em “Áudio”.
O desmazelo na checagem de nomes próprios potencializa o volume de erros. O atual prefeito de Goiânia, Iris Rezende, aparece nas páginas 32, 36, 37, 38, 39 e 106 com o nome acentuado. É um erro minúsculo, menor que o agudo desnecessário, mas é um erro, que acaba multiplicado por 12, o número de vezes em que o nome Iris (o político, não a parte anatômica) aparece incorreto. O pequeno trecho “... pesquisa do Ibope, comandada em Goiás, pela afiliada da Rede Globo, Organização Jaime Câmara, que dava a Íris...” (página 36) tem três erros e é vitrine dos parágrafos anteriores: erra na pontuação (vírgula após Goiás), erra na informação (a afiliada da Globo a que se refere é a TV Anhangüera; OJC é o conglomerado que inclui outras afiliadas da Globo, gráficas, jornais, rádios...), erra no nome de Iris. E vai juntando erros aos 500.
A precisão nas datas também influencia. Dá a vitória de Marconi Perillo para governador de Goiás em 1998 no dia 6 de outubro. Foi em dois dias antes no primeiro turno e três semanas depois no segundo. Fora dados do gênero, a revisora Walkiria Lobo poderia ter aconselhado Kajuru a obediência aos pronomes. Assim, talvez se inspirasse e desse linearidade à personificação. Num mesmo fim de página, a 103, o autor mistura tudo. Refere-se a si mesmo como “disse ao Kajuru” e, duas linhas depois, volta a ser o narrador, mandando recado: “Caro amigo, te adoro baixinho (...) Você já sabia (...) Vai te catar, Romário!”. O velho problema da pontuação (“te adoro, baixinho) e do pronome (“Você” e “te”). Lobo não notou a falta de espaço entre palavras, de unidade gráfica nas páginas, de critério no tamanho das fontes. Foi omissa também ao corrigir a digitação, principalmente a degravação de entrevistas e nomes como “impeachment” (página 151). Sobram erros nas aspas (há entre aspas e outras vezes assinados textos do próprio autor, como se fosse alguém estranho), que seriam banidos se a revisora fosse caprichosa. Se tivesse editor, certamente diria a Kajuru para... Bom, no mínimo haveria edição, que Kajuru não fez pelo simples motivo de que não é a sua área, ele a assumiu por outro motivo simples: baratear o livro. Se tivesse editor, o melhor texto do livro, o que ocupa as páginas 223 e 224, não estaria sem título, com tanto erro e numa letrinha impossível de ler sem óculos.
A lista “De A a Z” tem 316 pequenas falhas, principalmente de maiúsculas indevidas, nomes errados, pontuação incorreta. Há erros também em textos de outros autores, como no do jornalista Luiz Carlos Bordoni: “... prova cabal do Brasil provincial que vivemos”. Sem o “em” entre “provincial” e “que”, disse que vivemos “o” Brasil e não “no” Brasil. No contexto, está errado. Entre falhas que só um chato como o resenhista nota e problemas relevantes, o leitor anotou quantos erros? Pode recontar: são mais de 500. Em seu favor, diga-se que são mil vezes menos que o de exemplares vendidos.
Marketing pessoal vende um bom “produto”
Jorge Kajuru é craque no marketing pessoal. Nos lugares em que atua, seja um programa de TV ou a administração de uma rádio, cria-se o “Mundo K”, que gira ao redor de Kajuru. Como ele não tem privacidade, conta tudo a seu público, também revela inconfidências, dá furo com segredos. Seus telespectadores sofrem e riem com ele. Sabem sobre o casamento desfeito (culpa por isso, e por uma teia de vicissitudes, o senador Marconi Perillo quando governador), sobre a veneração à mãe, Maria José. Seus ouvintes o compreendem em tudo, não o questionam, apenas o seguem. Nos tempos em que a Rádio K do Brasil era suspensa, muitos ficavam com o rádio sintonizado no 730, ligado, gastando energia, à espera da volta do som. Por isso, mesmo for do ar, o prefixo de Kajuru liderava a audiência, porque quando o pesquisador do Serpes perguntava “em que emissora seu rádio está ligado”, a resposta era a K do Brasil.
O sucesso, claro, não reside apenas na autopropaganda. Kajuru tem conteúdo, por isso sua fama resiste à embalagem: “gordo, feio”, conforme se apresenta nos programas de TV, agora também quase cego, mas sempre querido pelo público do veículo mais exigente quanto a visual, a TV. Apesar de a TV ter lhe dado a notoriedade que o faz lotar shoppings em tardes de autógrafos num Estado em que quase ninguém lê livros, sua multiplicidade de talentos aparece mais no rádio. Entre seus feitos em Goiás está a ressurreição do AM, que sequer existia em grande parte dos aparelhos. Com a K do Brasil, as lojas passaram a vender rádios com AM, produto antes a caminho do lixão.
Marketing pessoal só funciona com essa equação. Kajuru vende um produto que o consumidor encontra no vasilhame. Então, o fato de Condenado a Falar tem 801 vezes o nome do autor, sendo nove apenas na primeira capa, não é o que faz vender 500 mil exemplares. Para encontrar 801 vezes o nome do autor em um livro, só se for numa autobiografia de mil páginas. Condenado... tem menos de 10 por cento disso em textos do autor e ainda assim parece normal haver seu nome 801 vezes, porque quem o conhece do rádio e da TV se familiarizou com o singular majestático, com o falar de si como se fosse outra pessoa, com a grandiloqüência, os exageros, os sentimentos expostos, os sofrimentos divididos.
A fama de polêmico e as brigas que compra com caciques deram a Kajuru uma aura de nervoso, como se estivesse sempre pronto a explodir. É o contrário. Trata-se de uma pessoa dócil, que se preocupa com quem está por perto. Fui seu comandado no jornalismo da Rádio K e por várias vezes o vi (para usar um verbo que no livro ele emprega à exaustão) se solidarizar com quem sequer conhecia. Com os empregados, era generoso a ponto de se prejudicar. Quando a rádio estava às portas da falência, fruto do enfrentamento com o governo do Estado, Kajuru sofria ao conviver com os pagamentos em atraso. Usando novamente um recurso empregado no livro, o tom confessional, conto um episódio particular. Quando soube que eu ia me casar, no auge da crise da rádio, Kajuru me procurou: “Você não vendeu sua quota e deve estar precisando de dinheiro. Vou lhe dar uma das minhas. Escolhe a que você quiser”. Eu tinha outros dois empregos. Dispensei a ajuda. Mas não me esqueci da oferta.
Também peça do marketing de Kajuru é o estímulo à divergência. Também não é só marketing. Sua equipe no jornalismo em Goiânia tinha do direitista assumido (coisa rara) Rosenwal Ferreira ao esquerdista radical Martiniano Cavalcante. Ele havia acompanhado minha campanha em favor de Marconi Perillo para governador e a defesa que eu fazia de suas ações para enterrar o PMDB e, mesmo sendo vítima do governo, me mantinha em seu programa de maior audiência, o K entre nós na Hora da Verdade. Talvez inspirado no chefe, mesmo governista ajudei a derrubar oito integrantes do governo com denúncias documentadas — nunca deixei de apresentar na rádio as provas que conseguia. Vai ser difícil compor outra equipe como aquela, num ambiente como aquele, sob comando de um mestre daquele nível.
Kajuru é o divisor de águas no rádio goiano. Antes dele, as equipes esportivas sobreviviam com patrocínio mirrado, a maioria de empresas de cartolas do futebol. Kajuru deu um soco em tudo isso e foi tanto sopro de independência que virou furacão. Multiplicou por muitos o número de ouvintes de rádio, dando sobrevida a um veículo então moribundo. Quando Kajuru voltou para São Paulo, Goiás voltou a ser aquele Estado do a favor, com o rádio ocupado a maior parte do tempo e dos prefixos com programas religiosos, distribuição de acepipes, vitrola para tocar música que nem quem pediu quer ouvir. Deixou muitos discípulos, inclusive este que vos escreve, tão kajurete que redige uma crítica desse tamanho sobre um sujeito que admira tanto. Crítica, nesse caso, 100 por cento merecida, pois o livro está muito aquém do patamar que Kajuru alcançou no rádio e na TV.
Excesso de falhas torna lista entediante
Na chamada grande imprensa, o que mais repercutiu de Condenado a Falar foi a lista “De A a Z”, mas há tanto erro que vira um tédio conviver com tamanho volume de falhas. Rebatiza mais da metade dos que define. O piloto Ayrton Senna aparece com uma reta, a do “i”, no lugar da encruzilhada do “y”. O dirigente esportivo Afonso Della Mônica surge grafado como na história em quadrinhos, mas não leva coelhadas por ter um chapeuzinho sobre o “o”, inexistente na certidão de nascimento. O canal de esportes da TV paga SporTV muda de gênero e vira feminino. Se os canais da Globo se transformam em travestis, o mesmo não ocorre com o fenômeno Ronaldo. Quando Kajuru editou o livro, em fevereiro passado, o Fenômeno ainda não havia se envolvido com os travestis no Rio nem Casagrande internado com drogas (um furo de Placar, a revista cuja morte Kajuru decreta na lista).
Passam de três centenas os erros, de A a Z, de todos os tamanhos, principalmente nos nomes dos envolvidos. Nada que não possa ser revertido na próxima edição, quando já terão sido vendidos 500 mil livros, mas se salvarão os próximos 500 mil. Faltou apenas conferir. Não precisaria, para isso, nem pagar revisor. Uma hora de consulta ao Google bastaria.
Condenado a Falar é ocupado por goianos do jornalismo (como Batista Custódio e Luiz Carlos Bordoni), da política (porrete em Marconi Perillo, muro para Iris Rezende, elogios a Ronaldo Caiado, referências a Jorcelino Braga), do empresariado (Rivas Resende, Odilon Valter Santos, Paulo Panarello Neto). A maioria aparece em reproduções de reportagens das revistas Veja (de que Kajuru diz ter sido fonte em matéria contra Marconi) e IstoÉ (que Kajuru chama de IstoFoi). Na lista, diz que Batista Custódio é do Diário da Manhã, mas poderia ser do New York Times, o jornal mais influente do mundo, e que “sabe escrever como mais uns três gênios”, mas não nomina o trio de texto perfeito. Como na maioria das definições, cutuca Batista: “Uma pena vê-lo vendendo mais opiniões do que espaços para poder sobreviver”.
Mesmo os goianos com os quais conviveu muito, fazendo até parte da família, são rebatizados. O dono do Goiás Esporte Clube, Hailé Pinheiro, cujo primeiro nome aparece com agudo em quase todo lugar, no livro tem um circunspecto circunflexo. Kajuru define Pinheiro com uma palavra: “Honesto”. Emitido por Kajuru, é um elogio e tanto, pois raramente destina o termo a alguém, muito menos para dirigentes de clubes de futebol. Iris (com agudo) Rezende (com “s”) é definido como “inimigo previsível. Politicamente, um zero. À direita”. Tem muito significado. Ou nenhum.
O maior inimigo de Kajuru em Goiás, o senador Marconi Perillo, é assim descrito: “Por algumas vezes eu tive vontade de matá-lo. Passou. Jorge Luís Borges tinha razão, ‘o esquecimento é a única vingança e o único perdão’. Marconis e os Miltons da imprensa: Borges foi ponta esquerda do Bangu!”. Os marconistas vão dizer que falta vírgula depois de “vezes”, o nome do escritor está grafado com um agudo a mais e falta hífen entre ponta e esquerda, além de sobrar “os” antes de Miltons, certamente, uma referência a seu maior inimigo na crônica esportiva, Milton Neves, responsável por 10 por cento dos mais de cem processos abertos contra Kajuru.
NILSON GOMES é jornalista.