O FC Zenit Petersburg, um time russo patrocinado pela Gazprom - maior empresa gasística da Rússia e que tem como conselheiro o presidente do país Dmitriy Medvedev (torcedor assumido do Zenit) - venceu hoje a Copa da UEFA, que é uma espécie de Copa Sul Americana com muito mais importância.
A campanha foi brilhante e começou lá no longínquo ano de 2007, nos dias 16 e 30 de agosto, quando, na oportunidade, venceu o Zlatè Moravc por 2 e 3 a 0, respectivamente.
Depois, a vítima foi o Standard. Vitória em casa e empate fora.
Classificado para o grupo A, disputou vaga com Larissa, AZ, Nürember e o inglês Everton. Classificou-se em 3°, atingindo 5 pontos em 4 jogos.
Tinha chegado a hora da onça beber água… Agora veríamos quem estava preparado para seguir em frente e conquistar o 2° título inter-clubes mais importante da Europa.
Logo de cara, o Zenit enfrentou o Villareal - que já chegou a uma semifinal de UCL - e fez o mínimo para passar: vitória (1X0) em casa e derrota fora (2X1). “Gols fora de casa” é critério de desempate.
A Europa pensou estar vendo uma zebra nascer. Só não esperava que ela fosse crescer…
Nas oitavas-de-final, enfrentou o Oympique de Marselhe, tradicional equipe francesa.
Novamente foi salvo pelo critério dos gols fora de casa. A derrota fora (3X1) e a vitória (2X0) em casa garantiram os russos na impressionante fase das quartas de final. A partir daí, poderemos chamar de fase “papa alemão” da competição.
A primeira vítima foi o Leverkusen. E dessa vez não precisou ser salvo pelo critério que tanto os ajudou. Um sonoro 4 a 1 fora de casa foi o suficiente para os críticos perceberam que a zebra que nascera na Espanha, crescera e fora se reproduzir na Alemanha.
Nem a derrota por 1 a 0, em casa, esfriou os ânimos do gelado time russo.
Nas semi-finais aconteceu o ápice de toda e qualquer surpresa que o futebol poderia nos proporcionar. Quem ainda duvidava que o esporte bretão era uma caixinha de pandora, os jogos contra o todo poderoso Bayern de Munique foram banhos de água fria. ou melhor… gelada.
Tudo parecia ir bem para o time germânico de Podolski, Kahn, Zé Roberto, Luca Toni, Ribery, Lúcio e cia limitada. Até chegaram a abrir 1 a 0, no Allianz Arena.
Entretanto, a zebra russa resolveu encarnar o exército vermelho de Trótski e empatou o jogo. Assombro geral.
Isso porque ninguém esperava pelo jogo de volta. Um retumbante 4 a 0 (!!!!!) pôs mais um time russo na final da UEFA Cup. Cheguei a comentar com um amigo que seria uma vergonha se o Bayern, com o time ignorante que possuia, não ganhasse tudo o que disputasse. Quando eu iria imaginar que um time russo, sem tradição no futebol europeu, fosse escrever na história o capítulo que alguns alemães não gostaram de ler?
Daí para o título era quase uma certeza. Os 2 a 0 de hoje - contra o Power Rangers - liquidaram a fatura.
Com todo esse texto aí em cima, espero ter justificado o porquê do “campeão irretocável”. Agora, eu me sinto na obrigação em justificar a parte do “A mancha“.
Na partida contra o Olympique de Marselha, torcedores russos ofenderam 3 jogadores negros do time frânces. Esse incidente trouxe à tona um concreto e explícito racismo arraigado no âmago da parte mais radical da torcida do Zenit. Questionado sobre o assunto, o técnico fez uma declaração que surpreendeu muitos daqueles que achavam que já tinham visto tudo no futebol: ““Eu gostaria de contratar qualquer um, mas os torcedores não gostam de negros. Honestamente, não entendo por que eles prestam tanta atenção na cor da pele. No nosso time, é impossível ter um jogador negro”, admitiu Advocaat ao site Scotsman.com.
Foi isso mesmo que vocês leu. O técnico admite que a TORCIDA (e que fique bem claro que é torcida) não aceitaria um jogador negro na equipe. A que ponto chegamos? Agora, só porque o jogador é negro, não é recebido de braços abertos pelos tifosi?
Essa torcida tem que aprender que o talento não escolhe o jogador pela cor, condição social, idade, credo, local de nascimento. Basta ver esses diferentes jogadores: Nakamura, Kaká, Drogba, Bojan, Romário.
Nakamura é japonês. O melhor japonês que vi jogar. Kaká é branco e nasceu com uma condição social e econômica altamente favorável. Drogba é costa-marfinense e negro. Bojan é jovem. Romário já está “”"aposentado”"”. Sem sombra de dúvidas, eu contrataria TODOS esses jogadores para a minha equipe.
É triste ver que um campeão quase irretocável, teve um campeonato perfeito manchado por sua própria torcida. Torcida que justamente deveria apoiar a equipe incondicionalmente, não importando quem sejam os jogadores.
Um mancha, sem dúvida. Mas uma mancha sem cor. Ou com a cor da vergonha…
PS: Texto longo, eu sei. Mas necessário.



