Em janeiro de 2003, mudei do Recife-PE para João Pessoa-PB. Dois meses depois, junto com um amigo de trabalho, mudei para a Praia de Ponta de Campina, vizinha a Intermares, em Cabelo PB. Conhecia pouco ou nada do lugar, salvo, algumas referências sobre ser aquela região uma área de preservação de tartarugas marinhas, devidamente protegida e monitorada pelo IBAMA, através do Projeto Tamar. Num dos primeiros dias, chegando em casa para o almoço - possível nesse lugar santo -, resolvemos dar uma caminhada pela praia. Eu já havia feito essa caminhada -como até hoje, 6 anos depois -, logo cedo, pela manhã. E cheguei a encontrar algumas tartarugas mortas na praia, por motivos que só depois fui conhecer: redes de pesca, hélices de mebarcações, etc. Mas, dessa vez, chegando a beira mar, com o mar cheio e pouco vento, percebi algo estranho que flutuava à flor d'água, a uns 200m da praia. Curioso e com cautela, nadei até perto daquela coisa. Confirmei ser uma tartaruga - não sei definir tipo -, com seus 70cm de diâmetro, a carapaça para baixo, boiando, parecendo desacordada, ou mesmo, morta. Aproximei-me, toquei sua nadadeira, ao que ela não reagiu. Decidi levá-la para a praia. Desvirei-a e, ao primeiro solavanco da marola, ela expeliu um baiacu caixão - peixe com nocivas toxinas, cheio de enormes espinhos. Estava mastigado e, talvez pelo tamanho, não foi devidamente engolido. Chegando à praia, tirei-a da arrebentação das ondas, considerando-a morta. Meu colega, que ficara na praia, alertou-me sobre a possibilidae de eu estar infringindo a lei, caso fosse pego com um animal desses nas mãos e, ainda por cima, morto. Nada a fazer. Deixei-a ali, próximo a água. Fizemos uma caminhada de 40 minutos, voltamos e vimos o animal no mesmo lugar, próximo à arrebentação das ondas. O colega, então, sem convicção, disse ter visto o olho da tartaruga se abrir e fechar. Chagamos mais perto e confirmamos. Era uma abrir e fechar de olhos vagaroso. Então, decidimos correr para casa e chamar os órgãos competentes. Tentamos contato com IBAMA e Projeto Tamar, através de números telefônicos fornecidos pela empresa de telefonia. Em vão. Possivelmente, devido ao horário de almoço - eram 13 horas. O que fazer? Tomamos banho, almoçamos e, às 14 horas, antes de irmos para o trabalho, descemos à praia. O mar havia subido ainda mais e não mais havia tartaruga no lugar. Percorremos alguns metros nos dois sentidos, perscrutamos o mar e nada encontramos...Bem, vou lhes dizer uma coisa: não creio que alguém a tenha tirado dali, muito menos que tenha sido levada pelo mar e afundado, já que ficara boiando quando a encontrei. Na verdade, até hoje, trago comigo a convicção de que ela recobrou os sentidos e, ajudada pelas ondas do mar que subira, retornou para casa, superou o efeito das toxinas do baiacu e, tomara, esteja até agora seguindo seu caminho. Quero dizer, também que, desde aquele momento, sinto-me uma pessoa melhor, mais confiante e mais apaixonado pela vida. Depois dali, encontrei várias outras tartarugas mortas na mesma praia, algumas enormes. Mas, também, vi muitas, em seus ninhos, devidamente monitoradas e protegidas pelo projeto. Melhor ainda, ancorado nos corais perto dali, ou mergulhando mais no fundo, perdi a conta dos indivíduos que vieram à tona, próximo a mim, ora para respirar ar puro, ora para um leve aceno de cabeça..., ao que retribui... Prometo a vocês... http://robertocarloscosta.wordpress.com