mad19.gif Se, o humanista, renascentista e chanceler da corte de Henrique VIII, sir Thomas More(1478-1535), da Inglaterra do século XVI, tivesse a menor idéia do que o futuro faria com o termo utopia, ele teria preferido a vida de comediante, dado o espírito satírico e irônico que o acompanhou até na hora da morte. É que, passados mais de cinco séculos e alguns anos a história insiste em desdizer, contrariar e frustrar aqueles que ousaram, por qualquer meio, idealizar, criar, para si ou para a comunidade, um lugar, um jeito e uma forma de vida, digamos, feliz, uma utopia. O muro de Berlim caiu em 1989 – para uns -, a guerra nuclear não aconteceu – para outros -, o Brasil seria uma potência econômica – jamais, para muitos -, distribuiríamos equanimente nossas riquezas – nem, nem, para Lula. Também, quem manda levar a vida sonhando, imaginando uma vida que não se pode ter? Bem, eu digo o seguinte: e daí, e eu com isso? Será que até isso vão querer tirar de mim? O sonho gratuito, atemporal, essa visão paralela, virtual e virtuosa que sai de dentro de mim e de muitos, cheirando a coração cheio de amor para dar ao mundo, terei que abrir mão disso, também? Estou fora! Contemos um pouco dessa história que, se preferirem, é só minha:

Eu, no início dos anos 1970, adolescente, ouvia em todos os cantos: 60% da população brasileira é de jovens. Logo, precisarão ocupar espaço no mercado de trabalho – fiasco. Início dos anos 1980, ainda jovem, ouvia: o problema é dos militares, da repressão. Somente com abertura política o Brasil poderá retomar os caminhos do desenvolvimento. Resultado: FMI, inflação, Tancredo Neves que não assumiu, José Sarney(PMDB-ex PDS), pacotes econômicos, Assembléia Nacional Constituinte - um fardo grande demais. Início dos anos 90, eu já era adulto, pai de família, empresário e ouvíamos: temos que modernizar a economia brasileira, fazer parte da globalização. Resultado: Collor, confisco do dinheiro, PC, e a construção dos carroções do futuro – vide lideranças do Senado de hoje. Ah, mas havia luz no fim do túnel: Finalmente, as forças progressistas ganhariam espaço, resolvendo todos os problemas da nação. Será? Resultado: FHC, bom pelo real, mas, quem mais pediu bênçãos ao neoliberalismo que resultou, entre outras coisas, na crise econômica de 2008 e que ainda está por aí – a primeira chaga que vem à tona, aguardem.

Dito tudo isso, imaginem como fico eu e minhas utopias, cada uma delas, apenas para me referir às de caráter sócio-econômico, sendo destruídas, paulatinamente, a cada governo, a cada eleição, a cada vez que, simplesmente, assistia a TV, ao longo de toda minha vida. Sim, pois foi chegando uma situação que só tem valor o que for dito na TV. Se fosse apenas eu o único utópico, mas, parece, são muitos. Então, é muita frustração, mesmo que muitos a tenham ao mesmo tempo e até consigam sorrir - vida de hiena, essa...

Mas, a história tinha que pregar uma peça: o bom e velho Lula, apoiado pelas esquerdas, untado pelo discurso da moral e da ética, por um partido forte, coeso e à margem de práticas políticas pouco recomendáveis – algumas abomináveis. Resultado: água - como no jogo de campo minado. Desculpem os mais crédulos, mas, não consigo ver a tal mudança de paradigmas que pude um dia sonhar. E não me refiro a socialismo, comunismo e outros ismos da moda. Mas de erradicação da fome onde abunda alimento, por exemplo. Será que querem fazer-me parar? Talvez, precisemos construir uma utopia para um período mais longo, uns 50 anos ou mais. Mas é muito tempo, pelo menos pra mim. Ou, então, resta uma atitude apoiada na verdade, na retidão da moral e da honra, irônica e cheia de sarcasmo, quase uma gargalhada hilariante, como a de Thomas More. Morreu em virtude de suas convicções: negou seu voto em favor do divórcio de Henrique VIII. Sonhou com o caráter indissolúvel do casamento, perante a Igreja. Julgado, sua sentença pedia que fosse suspenso pelo pescoço e cair no chão, onde seria decapitado e esquartejado. Por clemência, em virtude de sua vida e conduta ilibadas, o rei reduziu a pena para apenas decapitação. Ao saber disso, ele teria dito: “Não permita Deus que o rei tenha tamanhas clemências com os meus amigos”. E esse era o cara das utopias, quem começou a falar muito nelas. Alma boa, pregava um mundo de sonhos, de igualdade entre os povos, vivia sorrindo, feliz. Resultado: morto, decapitado e sua cabeça foi parar exposta na ponte de Londres. De forma que a vida não é fácil, não é só de sonhos, já faz tempo.

Então, na dúvida, não desisto. Fico eu com meus botões, convicções e utopias. Até por que, a maior parte delas é extensiva ao próximo, ao povo, aos mais necessitados. Não é justo que deixe a todos órfãos de um bom sonho. No mais, se olhar para o futuro está tão difícil, fico com minhas memórias, das coisas reais e das que criei, utopias que deram certo – meus filhos, amigos e paixões são um exemplo. Utopias da memória que, em tempos de “museus de grandes novidades”, ajudam a quem quer sorrir, um pouco que seja e de cabeça erguida... Bem, se serve de consolo aos mais sentimentais, Henrique VIII foi responsável por uma das sentenças mais graves e injustas aplicadas pelo estado contra um homem de honra. E, Thomas More foi canonizado pela Igreja e ainda hoje é santo da Igreja Católica. Parecido, não?