“Se eu tivesse uma carreira de peitos eu seria uma porca!” – ditado popular, mordaz, irônico, que muitos conhecem. Pois bem, sigamos o mote, já que eu e nem ninguém é de ferro, não ganhamos nada por isso, a não ser o constrangimento histórico de se achar no meio dessa lama – e nem porcos somos. Vamos lá:
Se eu fosse o MST eu continuaria lutando com todas as forças contra o descaso político, intransigência e soberba dos proprietários de terras, pelo Brasil afora. E, se fosse os ruralistas ou os grandes latifundiários aprendia - pelo menos um pouco – a falar a língua dos desterrados, descamisados e descrentes que, há décadas, clamam por alguma justiça social, e pela reforma agrária, eterna bandeira política de todos os figurões da política nacional, inclusive. Esquisito isso, não? Também, se eu fosse um desses camponeses que perdem a oportunidade de se fazer ouvir através do espaço de mídia que conquistaram, pelo caminho da boa política, ao invés de usando meios medievais de conquista, pela luta armada, covarde e traiçoeira, eu pararia para ouvir as vozes do bom senso. Ampliaria o olhar em seu redor, em busca dos históricos manipuladores do povo humilde e ávido por um lugar ao sol, muitos vindos do próprio movimento – outra esquisitice. Enquanto isso, se eu fosse a classe política brasileira teria vergonha de não ter, ainda, trazido para dentro do adequado fórum político essas pessoas que têm lutado por toda uma vida, tentando ser compreendidas em seus anseios, angústias e paixões, mas sempre, tratadas à margem, de cima para baixo, como se não fossem gente. Nesse ínterim, se eu fosse Lula ou o conjunto das entidades sindicalistas que forjaram sua ascensão política e, mais tarde, uma boa soma de antigos partidos seus inimigos – hoje cúmplices -, procuraria gastar um pouco do patrimônio pessoal, moral e político que conquistou à custa de discursos a favor dos menos favorecidos. Tentaria ser o estadista que tanto orgulharia nosso povo, chamando para si a responsabilidade de mediar soluções honradas para os dois lados. Dar uma canetada transferindo verbas públicas, tentando calar a boca de meia dúzia de apaniguados do MST, fazendo-se passar por um progressista, é muito pouco para um líder que chegou até aonde ele chegou. Enquanto isso, se eu fosse proprietário rural, buscaria por entre esses camponeses organizados, mão de obra com alguma cultura técnica e política, a menos que se queira pagar salários de fome a pessoas já sem dignidade, que se sujeitam a qualquer regime de semi-escravidão, eternamente. Ainda, se eu fosse o próprio povo brasileiro, cioso de uma vida mais digna, esperançoso da necessária distribuição de renda, ciente da miopia política e covardia que acomete a grande maioria dos políticos desse Brasil, abria mão da cômoda condição de voyerista do drama vivido por essa parcela do nosso povo que, se não tem toda razão ao seu lado, demonstra, como em outras oportunidades históricas, que não somos tão submissos assim, que também sabemos lutar, que também estamos dispostos a buscar um lugar ameno na sociedade que buscamos construir. Finalmente, se eu fosse o MST, que é parte do povo brasileiro, eu consolidaria uma imagem e uma práxis que dessem o melhor exemplo possível à sociedade, mostrando que pobreza não é defeito, que há vida digna no trabalho no campo e que não é preciso usar as mesmas armas e a mesma idiotice dos políticos de ontem e de hoje no trato de assuntos que não aqueles da agenda dos poderosos. Pois, não haverá dignidade alguma em ganhar essa guerra manipulando, malversando e criminalizando os espaços, os recursos públicos e a imagem de gente de bem que podem construir, melhorando assim, nossa sociedade. E, se...