Em Atenas, Grécia, lá pelos 510 a.C., qualquer pessoa, principalmente político - que era o pau que mais tinha na terra mãe da democracia - afora os escravos -, que oferecesse risco a esse sistema de governo da polis, ia tendo seu nome escrito numa pedra(concha) até que extrapolasse a paciência de quem mandava na “lage” – digo, no pedaço. O agito era grande. O sujeito era julgado e se a votação fosse favorável aos acusadores de plantão, ele era isolado da sociedade, exilado por 10 anos, ficando seus bens sob a guarda(?!) do Estado. Assim, era condenado ao OSTRACISMO! Pronto, falei! Alguma semelhança com IMPEACHMENT? Não! Quer dizer, vá lá que seja SIM, a mesma coisa – pouco importa -, afinal, a gente – digo o povo -, não ganha nada com isso, mesmo... Em 417 a.C., um tal de Hipérbulo parece ter sido o último punido por essa regrinha básica, ao que parece, por seus excessos de demagogia... Oh, Zeus, o que terá dito esse cara-de-ostra pra tirar do sério os gregos de plantão, à época? O fato é que, num tempo em que se amolavam adagas, espadas e lanças na ossada humana só por que uma deuzinha grega qualquer tinha uma crise de TPM, onde escravos viviam cavando e adornando a própria sepultura sem ter nem direito a voto, o cara que atentava contra a ordem política e social da época era jogado no mais esquisito ostracismo, mas apenas isso: não levava sopapo, não era algemado, não dormia na cadeia - onde se tem a mania de abraçar as pessoas por trás -, e muito menos morria. Talvez morresse de tédio decorrente da distância das benevolências democráticas que permitiam, inclusive, a prática do bom e velho undertable... Em relação ao nosso já saudoso e paquiderme impeachment, à primeira vista, a única coisa que parece se assemelhar com o processo grego em questão é a oportuna vacância de poder ou cadeira parlatória, dita assim, já que o termo parlamentar anda com o conceito um tanto capcioso ou, no mínimo, pejorativo na colônia brasileira. O resto é bem diferente: aqui, hoje, o dito-cujo óstrako ganha espaços de mídia e notoriedade incríveis, mantém seu patrimônio intacto - exceto o que fazia parte da última trama descoberta, se tiver um mal advogado -, continua movimentando conta bancária, tira longas férias em Miami, ao retornar logo se reelege pela lógica mecânico-financeira-eleitoral tupiniquim e a partir daí volta a encher o saco do povo, com cara feia e tinta roxa, verde, amarela e por aí vai... Na Grécia Antiga, o Estado - que não era besta -, ficava logo com o patrimônio do cara, incluindo-se a mulher dele, o cacife político e até a lage. Se é que algum deles voltou após dez anos, teve que comer miúdo na mão dos mandões do momento, até que os ostracistas o pegassem de jeito. Curioso é, também, que as duas formas de julgamento - certo engodo punitivo pra inglês e ouvinte de TV brasileira ver -, contempla especialmente figuras abastadas e de alguma importância política. Se o cara pobre de hoje, ou o escravo grego de antes for ou fosse pego com a mão na massa de pizza sabor panetone tinha que jogar sebo nas canelas e correr mais do que aquela gazela que há 50 anos foge do leopardo sem parar nem pra beber água. Mas não, até nisso vemos sutis diferenças casuais: lá usavam um raminho de oliveira por trás da orelha, aqui, é um raminho de arruda, diferente apenas do português da padaria que usa um lápis de ponta grossa e diz: RAIOS!
Agora, me ajudem. Já sabemos o que é ostracismo, de onde vem o bicho, que afrescalhou-se e mudou o nome pra impeachment, e que vira um grande espetáculo de mídia com forte viés cômico, quase um streeptease de tanta cueca e meias arregaçadas e arreganhadas, de onde entram e saem maços de notas em várias moedas, principalmente dólares e euros. Quero, então, saber quem é de fato o ostracista: quem condena ou quem é condenado? Pode até persistir a dúvida indefinidamente, mas gosto da idéia de que ostracistas seriam todos aqueles que fazem parte de uma mesma panela ou tacho onde caibam falsos acusadores, falsários acusados, fósseis políticos, mídia tendenciosa e lobos – digo lobistas -, a serem cozidos – digo fritados -, numa panelada blacktie. Sola de sapato de verniz, gravata YS e colarinho branco fazem as vezes de borda recheada da pizza sabor panetone, salpicada com odoríficos e doloridos galhinhos de arruda. Não se preocupem: a pizza sairá com a massa finíssima, obtida a partir de ovos da gema mole devidamente pré-pisoteados.
O ostracista tem esse jeitão insolente, largado, desbocado, quase um descarado. Como tem pouco a perder – do conteúdo moral e cívico -, está pouco ligando para a opinião pública. Sabe que, no ostracismo, logo nem se lembrarão dele e de sua fortuna material, cabendo aos ostracistas da acusação o papel de administrar seus bens e cacife político, sociabilizando lucros e perdas futuras, desde que não caia nem um pedacinho da panela, claro.
Mas, e o povo? Quem merece ser o grande ostracista do momento: o povo que não é ouvido, ou é “maluvido” – numa expressão popular -, ou, os “CARA” do poder? Quem pode jogar no ostracismo quem? De um lado, o poder político e financeiro que abafa o clamor popular, ignora o efeito real de milhares de imagens diuturnas de miséria, violência e descaso para com os menos favorecidos. Do outro, um povo que tem suas limitações, mas transborda criatividade e alegria de viver e que ainda não decidiu a que forma de ostracismo deseja condenar os poderosos: resignando-se e fazendo vista grossa aos seus atos espúrios, ou, tirando-lhes das mãos o poder, através do voto nas urnas, jogando-os ao esgoto que ajudaram a produzir. Quem é o verdadeiro ostracista?
Na minha frente, sol a pino, brisa e o barulho das ondas do mar... Na mesinha, um perfeito prato de ostras frescas, in natura, temperadas com sal, azeite e orégano pra manter viva a lembrança de uma boa e velha pizza... Alguém quer?